Paula Fernandes nunca escondeu do público sua batalha por conta da enxaqueca, uma doença neurológica genética crônica, que causa dores de cabeça latejantes que podem durar até três dias. "Eu cheguei no limite de ter dores de quase parar no pronto-socorro", contou a cantora, em entrevista ao jornalista André Piunti.
Depois de muito recorrer a remédios, a sertaneja, que pode ser vista na novela “Coração Acelerado”, da TV Globo, encontrou um forte aliado nessa luta nos últimos anos: a toxina botulínica. Sim, trata-se da mesma neurotoxina utilizada em tratamentos estéticos.
Em entrevista ao "PODDELAS", Paula revelou que faz tratamento em um centro especializado em dor de cabeça, localizado em São Paulo, o Headache Center Brasil. A artista destacou a necessidade de um tratamento integrado para cuidar da enxaqueca.
"Enxaqueca é doença, a gente tem que tratar da forma certa. Não adianta encher de analgésico, não vai melhorar, vai só cronificar mais. Então, fazendo o tratamento corretamente, você vai chegar a um quadro como o meu: eu não tenho mais crises de dor e, também, não tenho mais aquele mau humor, aquela irritabilidade, intestino ruim, às vezes, inchaço no corpo", sinalizou.
Mas, afinal, por que a toxina botulínica auxilia no tratamento contra a enxaqueca? Para tirar essa e muitas outras dúvidas, o Purepeople convidou o Dr. Tiago de Paula, médico neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC). Confira a seguir!
Por que a toxina botulínica pode ser uma aliada no tratamento de enxaqueca? Como ela atua no organismo para reduzir a frequência e a intensidade das crises?
A toxina botulínica atua no nervo sensitivo, no neurônio sensitivo. Ela bloqueia a saída de vesículas que sinalizam dor. E quando a gente faz isso, a gente começa a ensinar o cérebro, que tinha feito um caminho de dor, a desfazer esse caminho. Por isso que a frequência das crises é reduzida. Por ter essa atuação nos nervos periféricos, ela atua diminuindo tanto as fibras de dor crônica quanto as de dor aguda.
Em quais áreas a toxina botulínica precisa ser aplicada no tratamento contra a enxaqueca?
Existem pontos específicos de aplicação. Esses pontos foram desenvolvidos a partir do protocolo PREEMPT¹, que foi publicado em 2011. A gente tem os pontos específicos onde você aplica, buscando sempre o nervo, não buscando o músculo. Claro que alguns têm marcos musculares, mas a gente busca sempre o nervo. São 31 pontos que a gente aplica e existem mais alguns pontos que são pontos extras, que a gente acaba colocando em alguns pacientes, mas o protocolo básico PREEMPT são 31.
¹ O protocolo PREEMPT orienta o uso de toxina botulínica tipo A na prevenção da enxaqueca crônica. O objetivo é reduzir a frequência, a intensidade das crises e o uso de analgésicos.
Com que frequência a aplicação precisa ser repetida para garantir a eficácia?
No início do tratamento, a gente faz aplicação a cada três meses, que é o protocolo PREEMPT. Depois que a gente consegue uma estabilidade do paciente e um controle das dores, a gente começa a avaliar a necessidade de espaçamento do tratamento. A gente pode fazer de quatro em quatro meses, de três em três meses, com, no mínimo, oito ciclos, que é o estabelecido no protocolo PREEMPT. Mas o tratamento básico inicial é feito de três em três meses.
Trata-se do mesmo material utilizado para fins estéticos?
Hoje, só existe uma toxina botulínica aprovada para aplicação em pacientes com enxaqueca crônica, que é a toxina botulínica A. Para fins estéticos, todas as outras podem ser usadas, até mesmo a toxina A. Mas para enxaqueca, somente a toxina botulínica A, que foi a primeira desenvolvida.
Existem diferenças no modo de aplicação?
Na estética, a gente busca o bloqueio do músculo. No tratamento de enxaqueca, a gente busca o bloqueio nervoso. Então, são coisas diferentes. Você acaba tendo um efeito estético no paciente que faz a enxaqueca, porque é na região de fronte. Mas isso é um efeito colateral do tratamento da enxaqueca.
A aplicação de toxina botulínica pode ser o único tratamento ou ele precisa de ser combinado com outras alternativas para sanar os efeitos da enxaqueca?
Isso varia muito de como o paciente chega para a gente. Tem pacientes que precisam de fato somente da toxina botulínica para a gente controlar a enxaqueca. Outros precisam da associação.
Quando o paciente chega muito grave, com dores bem intensas, uso de antidepressivos e tomando remédio todos os dias, muitas vezes, a gente precisa associar com outro tratamento, o anti-CGRP², o mais utilizado hoje aqui no Brasil e por mim. A gente tem dois: o Fremanezumabe e o Galcanezumabe. Eles podem ser feitos de forma mensal ou trimestral para o controle da enxaqueca. Mas a gente usa, geralmente, para acelerar a melhora e nunca como tratamento único.
² Os tratamentos anti-CGRP são medicamentos modernos usados para prevenir crises de enxaqueca. Eles agem bloqueando uma substância do próprio corpo que está diretamente ligada ao surgimento da dor da enxaqueca.
Existe algum tipo de contraindicação nesse tratamento?
Não tem contraindicação. Na realidade, até pacientes gestantes ou que estão amamentando podem fazer.
A cantora Paula Fernandes declarou que, graças à aplicação da toxina botulínica, não precisa mais de remédios para tratar os efeitos da enxaqueca. Trata-se de uma consequência comum a todos os pacientes adeptos?
A Paula é uma paciente que faz tudo certinho. Ela faz a desintoxicação correta, não usa estimulantes alimentares, como cafeína e chocolate. Ela não está usando nenhum medicamento que piora a doença, como, infelizmente, alguns antidepressivos que muitos médicos acabam utilizando para tratar a doença.
A Paula já trata há mais de três anos a enxaqueca. A cada três meses, ela vinha fazendo aplicação de toxina botulínica e, progressivamente, foi tendo menos crises, ao ponto que ela deixou de ter crises que precisavam tomar medicações.
A doença dela está extremamente controlada. Então, quando a gente chega nessa fase de controle no paciente, ele não precisa mais tomar remédio. Tratar enxaqueca não é tomar remédio de crise. É fazer com que as crises não aconteçam mais. Infelizmente, a maioria das pessoas não sabem disso.
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